“Cremos na ressurreição dos mortos e na vida eterna!”

COR LITÚRGICA: ROXA

Animador:Celebrar esta eucaristia de hoje não é muito fácil para muitos de nós, pois confrontamos a vida com a realidade da morte. Querendo ou não todos têm medo da morte, apesar de nossa fé na ressurreição. Por isso a liturgia de hoje nos consola porque indica o caminho da eternidade, onde a vida nunca terminará. Eternidade é viver em Deus; é participar da vida de Deus de modo pleno, por isso a “vida do justo está nas mãos de Deus”.

SITUANDO-NOS BREVEMENTE

A instituição de um dia especial no ano, para lembrar espiritualmente todas as pessoas falecidas, deve-se a uma iniciativa dos monges beneditinos, por volta do ano 1000, na França. Aos poucos, este costume foi se espalhando pelo mundo, até ser assumido por toda a Igreja. 

O dia de Finados não é um dia triste ou de luto. Pelo contrário é um dia de saudosa recordação, confortados que somos pela fé e pela esperança na vida eterna. “Irmãos, não queremos que ignoreis o que se refere aos mortos, para não ficardes tristes como os outros que não tem esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, cremos também que Deus levará com Jesus os que nele morreram” (1Ts 4,13-14).

O Missal Romano e o Lecionário Dominical apresentam três propostas diferentes para a liturgia de hoje. De acordo com as necessidades pastorais, a comunidade celebrante faz sua escolha. Nesta celebração, damos graças ao Pai porque experimentamos, em nossa realidade, este mistério da vida que passa pela morte e podemos viver em comunhão com tantas pessoas queridas que vivem agora a plenitude da vida partilhada conosco, precedendo-nos no caminho da fé. 

Sugerimos que não se leiam, antes ou durante a celebração, as “infinitas” listas de nomes dos falecidos. A leitura, muitas vezes feita friamente ou rapidamente, não ajuda a vivermos este momento de recordação das pessoas falecidas.

Podem-se trazer as intenções num cesto ou recipiente adequado, colocá-lo em algum lugar no presbitério e dizer, no início da celebração, que ali estão colocados os nomes dos fiéis defuntos. Na Prece Eucarística, no momento dos mortos, fazer um instante de silêncio para que cada pessoa recorde, diante de Deus, os seus falecidos. 

Ressaltamos que existe uma benção final, própria para esta celebração. Ela está no Missal Romano.

Apresentamos aqui alguns tópicos extraídos do artigo “A ressurreição de Cristo e a compreensão da ressurreição hoje”, de autoria do teólogo Renold Blank, publicado na Revista Vida Pastoral, maio/junho 2012, p. 24 a 30. 

a)      Toda a nossa fé se baseia na ressurreição. Sem a fé na ressurreição, nossa fé seria simplesmente mais um entre outras crenças. “Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé” (1Cor 15,14). Existem dimensões do ser humano que ultrapassam o raciocínio e as experiências científicas e empíricas. A fé cristã nos diz que a vida triunfará pela força de Deus. “Deus faz viver os mortos e chama à vida as coisas que não existem” (Rm 4,17). Nosso Deus geral a vida e amou-nos tanto que enviou o seu Filho, Verbo Encarnado. Jesus nasceu, viveu e morreu. Mas a história não para aí. Ele ressuscitou. A ressurreição confirma, para todas as pessoas e para todos os tempos, o fato de que a morte, a destruição e o ódio não têm a última palavra. Deus é mais forte que tudo isso, e tal convicção recebe sua confirmação pelo fato de ele ter ressuscitado seu Filho. Ressuscitando seu Filho, quer que todos nós também ressuscitemos para a vida eterna. Por isso, a ressurreição permanece sendo, até o fim da história, a base e o ponto central de tudo aquilo em que, por nossa fé, acreditamos. Afirmava Tertuliano: ”A confiança dos cristãos é a ressurreição dos mortos, crendo nela, somos cristãos”.

b)      Mas, como podemos provar a ressurreição? Além da nossa fé, baseada no testemunho dos apóstolos, tantas vezes registrada o Novo Testamento, temos chamada “prova sociológica” da ressurreição de Jesus. Devemos ter presente que, no tempo de Jesus, a morte numa cruz era o maior sinal de fracasso, vergonha e exclusão. De um crucificado ninguém mais podia falar, nem pronunciar o seu nome. Baseado em Dt 21,23, um crucificado até chegava a ser considerado maldito pelo próprio Deus. Se a história de Jesus tivesse terminado na cruz, jamais alguém teria continuado a falar dele. Porque, então, começou-se a falar, a pregar, a testemunhar a ressurreição deste Homem? Imaginação? Alucinação? Interesses? Nada disso sustentaria aqueles pobres homens e mulheres, aliás, a maioria deles foi morta por causa desta fé. Tudo isso foi possível porque “Ele ressuscitou!”, “Ele está vivo!”. Foi por isso que se voltou a falar de Jesus, pois ele havia ressuscitado. De um pobre crucificado ninguém falaria e nem poderia falar. Com a ressurreição, até o sinal da cruz, sinal de vergonha, condenação e escárnio, foi-se transformando em sinal de salvação, de vitória, de vida. Se hoje, existe a fé cristã, é porque ele ressuscitou. 

c)      A ressurreição é a transformação inteira e global do ser humano por dentro, uma nova maneira de ser. “Todos seremos transformados” (1Cor 15,51). São Paulo, no capítulo 15 da Carta aos Coríntios, recorre à imagem metafórica da semente que parece morrer, mas, na realidade, se transforma em planta. Portanto, ressurreição não é revitalização de um cadáver. Ressurreição é muito mais e muito diferente. Ressurreição tampouco significa a volta para nova vida aqui na terra. Nossa vida, aqui, é vivida apenas uma vez, como lemos em Hb 9,27. Ressurreição é a transformação plena e total da maneira de ser de uma pessoa. O autor desta transformação é Deus. É o que vemos nas aparições do Ressuscitado: ele é de fato aquele mesmo Jesus que os discípulos já conheciam antes: pode ser tocado por Tomé, mantém as chagas da crucifixão, Pedro o reconhece após a pesca milagrosa, os discípulos de Emaús o reconhecem na fração do pão. Mas , ao mesmo tempo, ele é agora bem diferente: entra com as portas fechadas, Maria Madalena e os discípulos na praia não o reconhecem, os discípulos de Emaús, a princípio, também não.

d)      A ressurreição ultrapassa a dimensão individual e inclui a criação inteira. Deus não ressuscita uma alma desligada de todas as dimensões terrenas e materiais, mas tampouco ressuscita somente um corpo material. Deus ressuscita o ser humano inteiro, global, em todas as suas dimensões. A todas elas dá imortalidade; ele as inclui e integra por dentro de uma maneira de ser da morte de modo que toda a sua negatividade já não fazem parte e, em última análise, significa ser amparado no amor infinito desse Deus. É nesse Deus que a pessoa se moveu e viveu, encontra sua plenificação, seu amparo e seu último destino, que é a imortalidade. Em decorrência disso, a ressurreição ultrapassa em muito a dimensão do indivíduo como tal. Com efeito, abrange a criação como um todo (cr. Rm 8,21-27). 

e)      Insistindo que “o túmulo de Jesus estava vazio”, a Igreja primitiva expressou não somente o fato da ressurreição em si, mas também seu significado: a superação de toda dimensão de corruptibilidade, simbolizada pela putrefação que se verificaria dentro de um túmulo não vazio. Tudo isso é superado pelo agir de Deus. Por causa disso, Paulo pôde exclamar: “nem o olho viu nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam” (1Cor 2,9).

f)       Ressurreição não é apenas fato do passado, mas é promessa e antecipação. “Deus, que ressuscitou o Senhor, também nos ressuscitará a nós pelo poder” (1 Cor 6,14). “quem ressuscitou Jesus Cristo dos mortos também dará vida a vossos corpos mortais por virtude do Espírito que habita em vós” (Rm 8,11). O fato de Deus ter ressuscitado Jesus se torna assim a prova e a confirmação da esperança de que cada um de nós também será ressuscitado. É essa a grande promessa: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,54). Pela ressurreição de Jesus, o próprio Deus também confirma essa promessa, de tal maneira que o fato de Jesus ter sido ressuscitado se torna, olhando de outro ângulo, novamente peça-chave para toda a fé cristã (cf. Catecismo da Igreja Católica, n.989). 

g)      A ressurreição é a concretização da última solidariedade de Deus para com o ser humano. Existe ressurreição porque existe um Deus-Amor. A essência do amor é a aceitação incondicional do outro, simplesmente porque este outro existe. A ressurreição por parte de Deus seria assim a concretização de tudo aquilo que Paulo formula no famoso “hino à caridade”, descrito em 1 Cor 13, 1-13: o amor de Deus é mais forte que a morte. É ele que tem a última palavra, contra todas as manifestações da morte, da rejeição e do pecado.

h)      Enfim, a ressurreição é a expressão e a confirmação do fato de o último destino de toda pessoa e da criação inteira ser o repousar no amor inimaginável daquele que criou a todos nós. É para isto que Deus ressuscita todo ser humano depois de uma única vida vivida. Para que esse ser seja eternamente amparado no seu amor, Deus efetiva o amor daqueles pelos quais ele se apaixonou, os seres humanos. 

Um aspecto muito importante a ser ressaltado hoje, ao professarmos a nossa fé na ressurreição e na vida eterna, é que a ressurreição nos faz assumir um novo modo de viver (cf. Maria Clara Bingemer, Ressurreição: modo de viver. Jornal Correio Riograndense, 25 de abril de 2012, p.6).

Se contemplamos a morte de Cristo, contemplamos também sua ressurreição. O mistério pascal não apenas ilumina e ajuda a reler nossa vida, mas também ensina poderosamente qual é a vida que Deus diz ser plena, perene e que não é destruída pela morte. 

Precisamos viver como vocacionados para a ressurreição. Somos criados pelo Autor da vida para viver e dar a vida. Quanto mais dermos a nossa vida, tanto mais receberemos.

“Viver como ressuscitados é ter o olhar transfigurado pelo Espírito que permite ver beleza e dignidade onde parece só existir lixo e miséria. É ter ouvidos abertos para, em meio a ruídos dissonantes, escutar murmúrios e clamores dos que amam e dos que sofrem, e sentir na boca o beijo exigente da fome e da sede de justiça e dar-se em eucarístico alimento para saciá-las.É estender as mãos para servir e ajudar aqueles que buscam um rumo em suas vidas solitárias e perdidas, e transmitir-lhes a inefável experiência de sentirem-se amados, acompanhados e curados em suas feridas profundas e doloridas. 

Viver como ressuscitado é encontrar o segredo da alegria, esse mistério tão desejado e ansiado pelo coração humano. É ser capacitado a encontrá-lo longe das drogas, viagens sem volta, longe do artificial sossego feito de conforto e diversão impunes e atravessado por urgências e compadecidas.

Viver como ressuscitado é experimentar que o centro da vida se encontra à margem do caminho, muitas vezes ferido e semimorto; é saber que a criação é feita não para a destruição e a morte, mas para o baile fecundo que não termina e se desdobra em frutos de paz, diálogo e convivência. 

Viver como ressuscitados é levar, no próprio corpo, as marcas de Jesus para que a vida por ele dada se manifeste plenamente ao mundo. É estar no mundo sem ser do mundo, mas pertencer ao Senhor. É não ter domicilio em nenhum lugar, mas encontrar o próprio lar dentro de si mesmo, onde o Espírito do Pai e do Filho faz morada.

Viver como ressuscitados é, em suma, viver urgidos pela caridade, iluminados pela esperança, suportados pela fé no que ainda não se vê, mas se ‘sabe’ que será. É não guardar para si este segredo sussurrado ao ouvido na manhã do domingo, mas anunciá-lo, sem medo, todos os dias da semana, convertendo o discipulado em ardente e constante apostolado (Maria Clara Bingemer, op. Cit).  

Enfim, como lemos no Catecismo da Igreja Católica, n.995, “ser testemunha de Cristo é ser ‘testemunha da sua ressurreição’ (At 1,22), ‘ter comido e bebido com Ele após a sua ressurreição dentre os mortos’ (Ap 10,41). A esperança cristã na ressurreição está toda marcada pelos encontros com o Cristo ressuscitado. Ressuscitaremos como Ele, com Ele, e por Ele”.

Na Liturgia, celebramos esta nossa vocação de ressuscitados. No Batismo, fomos unidos a Cristo, começamos a participar da vida celeste de Cristo ressuscitado. Na Eucaristia, somos alimentados com o Corpo e o Sangue de Cristo, pois já pertencemos a seu Corpo. 

Com a oração sobre as oferendas da missa de hoje rezamos: “Ó Deus de misericórdia, purificai no Sangue de Cristo pelo poder deste sacrifício os pecados de nossos irmãos e irmãs falecidos e concedei o pleno perdão do vosso amor aos que lavastes nas águas do Batismo”.

Por isso hoje, neste dia de Finados, celebrando a Eucaristia, recordando também nosso Batismo, renovamos nossa fé na ressurreição de Cristo e nossa. 

Oração dos fiéis:

Presidente:Com o coração cheio de esperança, elevemos nossas preces ao Pai.

1. Vós que, sois misericordioso, consolai nossos irmãos e irmãs que sentem profundamente o vazio de alguém que morreu. Concedi-lhes a graça da serenidade, da esperança e da aceitação. Peçamos: 

Todos: Senhor, dai-nos a sua luz!

2. Ó Pai, por todos nós que estamos a caminho da eternidade concedei-nos a tua bênção e tua proteção. Peçamos: 

3. Entregamos em tuas mãos, ó Pai, todos aqueles e aquelas que vivem angustiados e com medo da morte. Que tua bondade os fortaleça com a certeza de que em Cristo encontra-se a fonte da vida eterna. Peçamos:

4. Senhor, que possamos reconhecer todo o bem que fizeram nossos irmãos e irmãs que partiram dessa vida e acolhei-os em teu reino de paz. Peçamos: 

5. Ó Pai pelos falecidos de nossa comunidade, para tua misericórdia divina lhes concedam o descanso eterno na Pátria celeste. Peçamos:

(Outras intenções) 

Presidente: Senhor, que a nossa oração possa socorrer nossos falecidos; libertai-os de todos os pecados e acolhei-os no esplendor de tua face. Por Cristo, nosso Senhor.

Todos: Amém.

III. LITURGIA EUCARÍSTICA

ORAÇÃO SOBRE AS OFERENDAS

Presidente: Acolhei, ó Deus, as nossas oferendas por nossos irmãos e irmãs que partiram, para que sejam introduzidos na glória com o Cristo, que une os mortos e os vivos no seu mistério de amor. Por Cristo, nosso Senhor.

Todos: Amém. 

ORAÇÃO APÓS A COMUNHÃO

Presidente: Fazei, ó Pai, que os vossos filhos e filhas, pelos quais celebramos este sacramento pascal, cheguem à luz e à paz da vossa casa. Por Cristo, nosso Senhor.

Todos: Amém.

BÊNÇÃO E DESPEDIDA

Presidente: Deus nos conceda o perdão dos pecados, e a todos os que morreram a paz e a luz eterna.

Todos: Amém.

Presidente: E a todos nós, crendo que Cristo ressuscitou dentre os mortos, vivamos eternamente com ele.

Todos: Amém.

Presidente: (Dá a bênção e despede a todos)

Canto final.

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